terça-feira, 20 de setembro de 2016

Rússia Gigante



Conflitos no espaço pós-soviético: por que vizinhos da Rússia não conseguem viver em paz?



Neste ano passam oito anos desde que rebentou a crise na Ossétia do Sul. Entretanto, esta não é a única crise perto da Rússia que provoca atenção internacional. Vamos rever os conflitos que são a herança desagradável do colapso da URSS.


A Sputnik acompanha de forma regular os acontecimentos no espaço da antiga União Soviética, que abrange a Rússia, Bielorrússia, Ucrânia, Moldávia, Geórgia, Armênia, Azerbaijão, repúblicas da Ásia Central como o Turcomenistão, Cazaquistão, Tajiquistão, Uzbequistão e Quirguistão, e três Países Bálticos – Letônia, Lituânia e Estônia. Neste espaço há alguns conflitos congelados e outros que estão ativos e que resultaram do grande número de territórios que aspiram ser reconhecidos internacionalmente como independentes. São eles a República Moldava da Transnístria, República da Abkházia, República da Ossétia do Sul, República de Nagorno-Karabakh e as duas autoproclamadas repúblicas populares de Donetsk e Lugansk. Também há o caso da Crimeia que aderiu à Rússia. Este passo também não é reconhecido pela comunidade internacional. A Sputnik apresenta as origens, razões principais e perspectivas de resolução destes conflitos.

Transnístria
 Moldávia pede a OTAN para expulsar contingente russo da Transnístria A razão do conflito da Transnístria é a discriminação dos russófonos na Moldávia no tempo anterior ao colapso da União Soviética. As autoridades da Moldávia realizavam uma política de “romenização” visando estreitar laços com a Romênia e mesmo aderir a esse país como contrapeso à sua permanência na URSS. A região da Transnístria sempre teve mais laços políticos e econômicos com a Rússia que com a Romênia. Além disso, 87% da população da região falava russo. Em 1990, foi formada a República Moldava da Transnístria que proclamou sua independência. Os protestos e confrontos esporádicos continuaram a partir de 1989. A fase militar do conflito durou desde março até 1 de agosto de 1992. Morreram cerca de 2 mil pessoas. A paz foi reestabelecida pelos esforços da Rússia, que até agora faz parte das forças de paz em conjunto com a Moldávia e a República Moldava da Transnístria. A Moldávia recusa reconhecer a independência dessa região russófona. As propostas da Rússia para a criação de uma federação da Moldávia com a região da Transnístria não foram acolhidas. O conflito permanece congelado e agora, pelos vistos, não há quaisquer perspectivas para sua resolução.

Geórgia espera rever resultados da crise de 2008 com Rússia Estas repúblicas proclamaram a sua independência da Geórgia como resultado da crise russo-georgiana de agosto de 2008. As origens do conflito também estão ligadas ao fim da URSS, no início dos anos de 1990, quando as autoridades aspiravam ganhar independência da União Soviética sem conceder autonomia às regiões com minorias étnicas, incluindo a Ossétia do Sul. A região se proclamou uma república em 1989 e permaneceu na União Soviética em 1991, quando a Geórgia obteve independência. As operações militares continuaram desde 1991 até julho de 1992. Mais de mil ossetas foram mortos. Na região foi instalada uma missão da OSCE. Nos anos de 2000, o novo presidente georgiano, Mikhail Saakashvili, que chegou no poder em 2004, começou a realizar uma linha política de unidade territorial do país. O culminar desta política foram as provocações georgianas contra a Ossétia do Sul em julho-agosto de 2008. Em 8 de agosto, o Exército da Geórgia lançou uma ofensiva contra a capital da Ossétia do Sul, Tskhinval. Também foram mortos alguns elementos de forças de paz russas deslocadas para a região. Naquele momento, na república, bem como na Abkházia, muitos residentes conseguiram obter cidadania russa. Para proteger os seus cidadãos e os ossetas da agressão georgiana, a Rússia enviou tropas para a zona de conflito, que terminou em 12 de agosto. A Rússia e a Geórgia assinaram um acordo de paz com seis princípios de regularização. Abkházia População da Abkházia comemora o reconhecimento de sua independência pela Rússia © Sputnik/ Vladimir Popov Abkhásia não pretende se tornar região da Rússia O conflito interétnico entre a Geórgia e a Abkházia continuou durante todo o período soviético. As tensões começaram se agravando em 1989, quando o povo abecásio pretendeu sair da Geórgia. Os confrontos continuaram até 1992, ano em que se desenrolou uma guerra. A Geórgia não queria a desintegração do país e a Abkházia se manifestou por mais autonomia e a independência como seu objetivo final. O cessar-fogo foi estabelecido em 1993. O conflito levou as vidas de mais de 8 mil pessoas de ambos os lados. Para a região foram enviadas forças de paz da Rússia. Depois de períodos de confrontos e tensões, bem como o conflito de 2008, a Rússia reconheceu em 26 de agosto as independências da Ossétia do Sul e da Abkházia. A resolução da crise pode ser o reconhecimento internacional da independência dessas repúblicas. Até agora, somente cinco países reconheceram o novo estatuto da Abkházia e quatro – o da Ossétia do Sul. Nagorno-Karabakh Projéteis de artilharia usados em posição de fogo na povoação de Magadis, na zona de conflito de Nagorno-Karabakh, 5 de abril de 2016 © Sputnik/ Rússia fecha os olhos a atrocidades à sua porta? Há muito tempo que a Armênia e o Azerbaijão têm uma disputa sobre a pertença de Nagorno-Karabakh. A Região Autónoma de Nagorno-Karabakh, criada ainda nos tempos soviéticos, tinha uma população principalmente da etnia armênia. Os armênios sempre se queixaram da discriminação dos seus direitos, sendo parte do Azerbaijão. No fim de 1980, a região lançou uma tentativa de entrar na Armênia ainda no âmbito da URSS. Este passo provocou tensões na região e confrontos de base étnica em ambas as repúblicas soviéticas. Em 1991, Nagorno-Karabakh se expressou em referendo pela saída do Azerbaijão, o que provocou um conflito sangrento em maio de 1994. O conflito levou as vidas de 24 mil pessoas. A nova fase do conflito, que se iniciou em 2 de abril, é a mais violenta desde a entrada em vigor do cessar-fogo em meados dos anos de 1990.

Poroshenko acha 'extremamente difícil' recuperar Crimeia e Donbass As autoproclamadas repúblicas populares de Donetsk e de Lugansk surgiram ao longo do conflito no Leste da Ucrânia. Esse conflito foi o resultado da mudança de poder na Ucrânia, depois de o presidente ucraniano Viktor Yanukovich desistir de assinar o acordo de associação entre a Ucrânia e a União Europeia no fim de 2013. A nova liderança não representava os interesses das regiões russófonas e ali não ganhou popularidade. Na região leste da Ucrânia chamada de Donbass se iniciaram protestos contra a discriminação dos russófonos. Em abril de 2014, foram proclamadas a República Popular de Donetsk e a República Popular de Lugansk com as suas próprias estruturas de poder e seus exércitos. Em resposta, a Ucrânia anunciou o início de uma operação antiterrorista contra o seu próprio povo. Em maio, nestas repúblicas foram realizados referendos sobre a autodeterminação. O povo das regiões se expressou pela soberania e adesão à Rússia. Depois dos referendos, a Ucrânia declarou oficialmente as duas repúblicas como organizações terroristas. As ações militares continuam até agora. Os países ocidentais acusam a Rússia de se ter envolvido no conflito. Em fevereiro de 2015, um grupo formado especialmente para a resolução do conflito ucraniano – o Quarteto da Normandia (Rússia, Ucrânia, França e Alemanha) – elaborou um acordo que foi assinado pela Ucrânia, Rússia e repúblicas de Donetsk e Lugansk. As disposições principais dos acordos de Minsk – o cessar-fogo e o estabelecimento de estatuto especial para as repúblicas dentro da Ucrânia – ainda não foram realizadas. Pelos vistos, este acordo apresenta um plano real de resolução, mas muito depende das autoridades ucranianas que agora continuam matando e descriminando a população russófona da Ucrânia. Dois dos conflitos enumerados têm caráter interno – na Transnístria e no leste ucraniano. A resolução de outro conflito depende muito da decisão da comunidade internacional – a independência real permitirá à Abkházia e Ossétia do Sul desenvolverem seus próprios laços econômicos com o mundo e se tornarem estados de pleno direito. O conflito de Nagorno-Karabakh deve ser resolvido por ambos os países – o Azerbaijão e a Armênia. Todos estes conflitos podem ser considerados consequências diretas ou indiretas do colapso da União Soviética, que deixou muitas tensões interétnicas nos territórios em que se formaram novos estados independentes.